“Ó mestre, fazei que eu procure mais consolar que ser consolado
Compreender do que ser compreendido
Amar que ser amado
Pois, é dando que se recebe
É perdoando que se é perdoado;
E morrendo que se vive
Para a vida eterna”

São Francisco de Assis

5º dia – CAMALDOLI A LA VERNA

Pegamos carona com a voluntária do refúgio em Camaldoli e avançamos cerca de 5 km. Me sentia muito bem e caminhei na frente do grupo por um longo trecho, até que uma hora, nos separamos. Acredito que eles compreendiam a minha necessidade de às vezes seguir no ritmo deles e em outras no meu, caminhar sozinha. Minha intenção era espera-los mais adiante, e assim o fiz, por cerca de mais de uma hora. Porém, nada do grupo aparecer. Pensei: decidiram parar em Biforco, uma vila antes do destino que combinamos na noite anterior. E foi exatamente o que aconteceu. Eles pegaram um caminho distinto e nos desencontramos.

Talvez era a mágica do caminho, dizendo que eu deveria cruzar esse bosque sozinha, em silêncio e com muita chuva. Sentia medo: e se me perdesse ou encontrasse algum animal. Que que eu iria fazer? Só dei o play no Fagner cantando a oração de São Francisco de Assis e segurei meu chaveiro do Niten que carrego na mochila. Fui caminhando assim até a bateria do celular acabar e eu decorar a oração. Segui depois cantando sem música mesmo e ainda agarrada no meu ‘amuleto’. Foi a caminhada mais linda de toda minha viagem. No bosque eu tive a certeza: não precisava temer nada, eu nunca estive sozinha. E também, entre as árvores, a terra molhada e fresca, as gotas geladas da chuva de outono, o vento suave, o cansaço no corpo, o frio e até o medo, abriram um portal e revelaram quem é que estava sempre comigo. É preciso ir além de si mesmo para voltar…a si.

Distância: 28km

Dificuldade: Intensa. Esse dia eu me distanciei da turma e acabei chegando sozinha no destino final. Chovia muito e boa parte do trecho estava muito escorregadio. Cai duas vezes de bunda ao descer por entre pedras para encontrar o caminho.

Marcação: O Caminho de Assisi me surpreendeu, não só pela beleza e preservação da filosofia peregrina, mas também por suas descidas e subidas ingrimes e pelos poucos ou quase nenhum ponto de parada durante o dia de caminhada. Não é uma trilha fácil. A marcação segue verde, mas também há marcações brancas e vermelhas que orientam até o destino final de La Verna. Lembro que fiquei muito confusa na reta final, mas cruze a floresta e siga morro acima até a entrada do Santuário. O dormitório dos peregrinos fica logo a direita no segundo andar e não há nenhuma indicação.

Refúgio: O santuário de La Verna é imenso e a recepção não é tão fácil de encontrar, lembro que passei pelo museu, cheguei ao restaurante e a recepção ficava ao lado. Você paga pela noite, jantar e café da manhã. O santuário funciona também como um hotel então é bem movimentado. Quanto aos peregrinos encontrei pessoas que faziam outras trilhas que passam por La Verna e todos ficamos hospedados em um quarto que tinha em torno de doze camas. Dormi com três cobertores porque sentia muito frio, resultado de um dia todo embaixo de chuva. Mochila, roupas, tênis…tudo estava molhado.

camaldoli-bifprco La verna

6º dia –LA VERNA A CAPRESE

Distância: 23 km

Dificuldade: Fácil. Daqui em diante o caminho já ficou bem mais tranquilo. Boa parte em asfalto e mesmo quando voltei a trilha a elevação não era muito intensa.

Marcação: muitas trilhas se misturam a partir desse trecho e foi complicado encontrar o caminho na saída do santuário. Acabei escolhendo seguir pela rodovia até Caprese, onde a marcação ainda fica mais confusa. Passei por uma trilha entre fazendas, cruzei a rodovia de novo e encontrei a flecha verde. A partir desse ponto a marcação volta a ficar melhor.

Refúgio: Caprese é minúsculo e o refúgio fica quase na saída. É uma casa só para peregrinos. O proprietário tem um hotel e restaurante no centro, mas acredito que sua relação com a organização do Caminho de Assisi não está resolvida. Não fomos bem tratados, ele fez questão de demonstrar que o valor que pagávamos, como peregrinos, era muito pouco e quase se recusou a ligar o aquecedor do local. Foi só depois de desabafar toda sua insatisfação em nós que resolveu os problemas, tornando possível nosso grupo jantar e ter uma noite tranquila.

Ah! Reencontrei meus amigos. Chegaram no refúgio algumas horas depois que eu! 🙂

Verna-caprese

Gostou? Ficou com dúvidas? Comenta aqui. Aliás se quiser a planilha de custos do caminho, me escreve, que mando para seu e-mail. 

5 thoughts on “74º – CAMINHO DE ASSISI – PARTE III

  1. Muito bom relato do dia a dia da caminhada , suas dificuldades e impressoes. Estou adorando!
    Dúvidas surgem para quem tem um dia a pretensão de fazer o caminho: é preciso levar saco de dormir? Quanto de euros (aproximado) se gasta na caminhada toda? É seguro ir sozinha? Obrigada por incentivar pessoas como eu, que amo caminhar, estar entre a natureza, mas nunca fiz só. Parabéns e obrigada mais uma vez pela iniciativa e por compartilhar sua experiencia! Sueli Hioka

    P.S. tem a continuação do relato?

    1. Sueli! Bom dia!
      Vamos lá:
      1. Saco de dormir: eu levaria. Escolhe um leve, porque assim você sempre tem certeza que está dormindo em um lugar limpinho. 🙂
      2. Vou te mandar a planilha de custos por e-mail. Se tiver dúvidas, me avisa.
      3. Se você já fez outras caminhadas antes, é seguro sim. Só digo isso porque a marcação não é muito boa e quem é iniciante pode ficar com medo.
      Se você ama caminhar e se conectar com a natureza e pessoas esse Caminho é para você.
      4. A continuação você encontra aqui – acabei de escrever 😉 http://www.natrilhas.com.br/76o-caminho-de-assisi-parte-iv/

      Beijos e bom caminho!!!

      1. Muito obrigada Carina pelo feedback!
        Eu tenho alguma experiencia em caminhada, não muita. Fiz uma parte (7 dias) do Caminho de Santiago no ano passado e amei… quero voltar e fazer o restante! Mas agora descobri o Caminho de Assisi através do seu relato me incentivou muito… Vou estudar muito esta possibilidade! Agradecida!

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