“O que temer? Nada.
A quem temer? Ninguém.
Por quê? Porque aqueles que se unem a Deus obtêm três grandes privilégios: onipotência sem poder; embriaguez, sem vinho; e vida sem morte.” São Francisco de Assis

 

Me lembro que estava indo de Nice a Gênova em um carro com mais três italianos que moram na França a trabalho. Conheci eles, um cara e duas meninas, através do Blablacar, um site de carona que funciona muito bem na Europa.

Conversávamos sobre o que eu não poderia deixar de fazer na Itália, como comidas, lugares, museus, gelatos e caminhadas. O italiano ao meu lado comentou que no país é possível encontrar inúmeros caminhos voltados para peregrinação e um deles era o Caminho de Assisi.

Eu nunca tinha ouvido falar, mas memorizei a sugestão, até porque um caminho de 400 km que passa entre Parques Nacionais e cuja a rota é a mesma que o próprio São Francisco de Assis percorreu, não é fácil de se esquecer.

Fiquei em Gênova dois dias e em um deles fiz a Cinque Terre. Logo depois parti de trem para Florença onde fiquei por mais quatro dias. Florença é uma cidade muito turística e por mais que o verão Europeu estava em seus dias finais a cidade seguia extremamente movimentada. Fiz passeios turísticos, vinícolas, museus, gelatos, pizzas, mais gelatos, mais museus, gelato de novo e enfim…não aguentava mais. Olhava ao redor e via um desiquilíbrio, afinal como podia existir tantas pessoas comendo excessivamente, e me incluo nesse grupo, enquanto outras pediam esmola e passavam fome. Não tinha sentido!

Lembro que acordei, meditei e quando abri os olhos, decidi: VOU FAZER O CAMINHO DE ASSISI. Pesquisei onde começa, quantos dias dura e onde poderia me hospedar na primeira noite, porque o resto eu tinha uma certeza cardíaca que o fluxo me conduziria. Arrumei a mochila, comprei a passagem de trem para Bolonha e fui.

Para chegar em Dovadola, vilarejo onde o caminho inicia, foi preciso ir de trem a Bolonha, depois Bolonha a Forlí e mais um ônibus até Dovadola. No trecho Bolonha-Forlí estava acontecendo uma greve dos maquinistas e muitos trens não estavam saindo. Uma voz feminina anunciava no holofote algo que não entendia e só via a multidão correndo de um lado para o outro na esperança de conseguir um trem que saísse da plataforma. Vi o tempo passando e meu anseio crescendo, não podia de nenhuma maneira chegar à noite no meu destino final.

Parei um moço que parecia ter uns trinta e poucos anos e perguntei em inglês qual trem ia para Forlí. Às vezes penso que tenho muita sorte nessa vida, ou me pergunto se é essa crença de que tudo vai dar certo que faz com que as coisas realmente deem. Ele não só me ajudou como me acompanhou durante toda a viagem, indo para além do seu destino somente para mostrar qual o caminho que deveria seguir. Entretanto o mais interessante foi o assunto que ele abordou durante os trinta minutos de viagem, extremamente esotérico. Aquele encontro ali não era à toa. Aliás, será que há encontros à toa?

Cheguei no final da tarde de um dia chuvoso, o outono já se mostrava mais por aqui, com minha mochila nas costas, sozinha e sem muita informação. Nos arredores ninguém falava inglês o que fez a comunicação virar mimica, mas consegui chegar até o primeiro albergue, um casarão afastado situado ao lado da igreja. Toquei a campainha e nada! Ninguém atendia. Pensei, pensei, sentei e me perguntava ‘Onde me enfiei?’. Toquei de novo e nada! Fazia frio mas eu estava mesmo era suando: e se ninguém atendesse, o que iria fazer? Onde iria dormir? E rodava ao redor de mim mesma confabulando todas as possibilidades. Até que descobri outra campainha e uf! um homem respondeu. Agradeci aos cosmos!

Três minutos depois a porta se abre, um padre aparece e me pergunta “Posso ajudar?”. Bang! Obrigada cosmos! Já mandei a frase “Io no parlo italiano. Io pellegrina. Camino de Assisi.” E assim ele me recebeu, vendeu a credencial do caminho, eu paguei pela noite e fui para a minha confortável acomodação: um quarto no segundo andar com oito camas, entre baixas e beliches, toalha gratuita, banheiro que espirrava água fria e uma cozinha no final do longo corredor. Estava sozinha e a última peregrina que começou o caminho havia saído há 4 dias antes, ou seja, não tinha chances de encontrar ninguém na trilha, até porque o próximo peregrino agendado era só na próxima semana.

Depois de um banho, deitei e falei com São Francisco: “Estou aqui. Segui meu coração. Estou com medo. Mas confio. Eu tenho a vontade sincera.”

 

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Albergue – Rifugio Benedetta Bianchi Porro di Dovadola

 

Continua…

Gostou? Ficou com dúvida? Comenta aí que o que eu puder ajudar, ‘tamo junto’! 🙂

2 thoughts on “CAMINHO DE ASSISI – A DECISÃO

  1. Carina!
    quero ouvir mais dessa história e de tantas outras que tem para contar!
    Beijinhos
    Chris

    1. Oi Chris! Fico feliz que gostou 🙂
      Pode deixar que agora vou começar a postar por aqui.
      Aos poucos vou contando o backstage dessa trip.
      beijos

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