BOLÍVIA - 15 DIAS EM ALTA MONTANHA,  VIAGEM

DIÁRIO DE VIAGEM – BOLÍVIA

DIA 20/07/2014

Meia-noite, você acabou de acordar de uma noite mal dormida, em um acampamento que se encontra a 5.300m de altitude. Sua cabeça dói e não dá para comer quase nada, uma vez que você se sente um pouco enjoado. Só de pensar que tem 3 camadas de calças para tirar e que o banheiro é longe, precário e frio, qualquer vontade é suprimida, enquanto a seguinte frase lateja na sua cabeça: “o que estou fazendo aqui?”

Mas a escolha já está feita e não dá pra voltar atrás.

Quando sai, existe muita neve ao seu redor, uma temperatura de -15°C e você sabe que ainda tem que organizar seus equipamentos de escalada, vestir uma bota dupla de quase 2Kg cada pé, colocar os crampons para andar na neve, pegar a piqueta e caminhar no mínimo 7 horas, carregando mochila, encordoado ao guia e mais uma pessoa, para alcançar um objetivo: o cume da montanha.

Parece cenário de documentário de lugares extremos, certo? Mas essa foi a minha noite do dia 14 de julho de 2014, quando decidi passar férias fazendo um curso de escalada em gelo de alta montanha.

Quando parti rumo à Bolívia, a fim de escalar a montanha Huayna Potosi, de 6.088m de altitude, estava cheia de expectativas. Acreditava que ao chegar ao topo, chegaria a algum nível de contemplação que me preencheria. Algo que nunca tinha visto antes, um tipo de encontro com Deus. Na minha cabeça era certo que lá estavam as respostas para algumas perguntas. Lá estava o que não conseguia encontrar em mim.

Foram 13 dias de expedição, divididos entre a cidade de La Paz (3.600m), Refúgio I (4.300m), Refúgio II (5.300m) e cume (6.088m).

A aclimatação para enfrentar esse cenário é regada a muita água, dores de cabeças, enjoo, falta de ar e diversão.

Sim, apesar de todo o sofrimento, em uma expedição como essa, o grupo tem que se divertir. Isso foi essencial para preencher de leveza a dura jornada que estávamos encarando.

Para mim foi tudo muito novo. Nunca estive em altitude antes, nunca tinha enfrentado temperaturas negativas, nunca tinha subido nenhuma montanha acima de 3.000m e nunca tinha visto neve. Que coragem, você deve estar pensando, certo? Mas a motivação de encontrar algo maior me movia tanto que todas essas adversidades pareciam ser pequenas. A realidade é que não foi nada fácil.

Meu objetivo, minha busca, tudo o que eu esperava alcançar foram frustrados por um detalhe: não cheguei ao cume.

Quando dei início a ascensão o tempo estava perfeito, dentro das condições de alta montanha. A lua cheia iluminava tanto que a headlamp praticamente não era necessária. Os primeiros passos foram indo, devagar, mas firme. Até que depois de três horas de caminhada, tudo se silenciou e o som da minha respiração se tornou minha única trilha sonora. Os pensamentos que ocupavam minha cabeça, se foram. Como um mantra ia repetindo: -mais um passo, mais um passo. Nesse momento, a mochila que continha somente os 2 litros de água parecia pesar vinte vezes mais e minhas costas doíam muito. Assim como minhas pernas, as quais estavam com 150 quilos cada, pelo menos era essa a sensação. Os passos foram diminuindo, o ar foi ficando mais gelado, até o momento que percebi, a exaustão. Física e psicológica. Uma sensação que te dá a certeza e também a serenidade, de que ali é o seu limite, você deu o seu melhor. E assim tomei a decisão de retornar ao acampamento.

Porém, com certeza esta foi a viagem com a qual mais aprendi. Se eu pensava que era só chegando ao topo que encontraria as respostas, estava totalmente enganada. Estava enganada sobre tudo, pois não encontrei resposta alguma. Percebi, na verdade, que não precisava delas, aliás, não precisava nem das perguntas, porque o que realmente era essencial, estava lá, em mim.

Tirei 3 grandes lições disso tudo.

A primeira, sobre limites. Meus, dos outros e entre ser humano e se deparar com a natureza. Entendi que limites são bons, mas é ótimo testar e entender até onde é o seu, pois a partir do momento que você descobre até onde dá para ir, essa linha limitadora, se expande um pouco mais e isso é mágico.

A segunda é sobre respeito. Respeito pela montanha, que é, sim, perigosa. Deve-se ter muito preparo, planejamento, cuidado e conhecimento sobre altitude, escalada e montanhismo para subir. Mas quando respeitada, essa natureza que é tão assustadora, mostra-se a provedora da vida que é.

E a terceira lição, sobre o valor de cada pequeno detalhe da vida. Eu fui e conheci o frio, o vento, a neve, o medo, a exaustão e, definitivamente, a minha força. Compreendi a preciosidade de um raio de sol que aquece, de uma palavra motivadora, um abraço sincero, um banho quente, uma boa noite de sono, o ar úmido, da comida de casa de um xixi sentada no vaso.

Em alta montanha, o objetivo não é o cume, mas sim o processo, o caminho que se passa.

 

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